Cinza, Guerras e Deuses: a Crueza Fofinha de War of Ashes.

Capa do Livro.

Capa do Livro.

War of Ashes é um lançamento de Outubro desse ano da Evil Hat, a mesma empresa que produziu o Fate Básico, e usa a versão Acelerada do Fate, com uma série muito interessante de customizações. Ao contrário dos dois livros resenhados anteriormente, eu só tive acesso ao PDF dessa publicação. Com essa desvalorização do Real importar está semi-impossível… Mas, ainda sim, resolvi resenhá-lo e, se tudo der certo, talvez eu consiga por minhas mãos em um volume dele no começo do ano que vem. A vida chamou, digamos assim, e o tempo pro blog diminuiu e eu não tive tempo de (re)ler algum dos meus volumes para resenhá-los.

War of Ashes é um livraço. Tanto em tamanho (são 370 páginas) quanto em qualidade: a prosa é muito boa, fluida e bem simples, facilitando o acesso para os que não dominam bem o inglês. O design gráfico é muito legal, em especial as ilustrações do cenário, com criaturinhas muito próximas dos Muppets, meio que de pelúcia, mas com um toque Arturiano, de alta Idade Média, que cria um contraste incrível.

Agaptus, o mundo.

Esse contraste, inclusive, marca bem todo o tom do cenário. Ele é definido pelo seu criador como “grimsical”, uma fusão entre as palavras Grim e Whimisical. Grim é algo cru, trágico, real, sujo enquanto Whimsical é algo efêmero, besta, inconsequente. Essa tensão é bem clara e definida no cenário: não só a aparência das raças do cenário é fofinha, mas a descrição delas também é bem leve, desenvolva e super divertida. Isso não muda, por exemplo, o fato de que as 4 grandes raças do Cenário estão em guerra entre si, sem previsão para que ela acabe. Ou de que o mundo está sendo completamente devastado por uma nova era glacial bem inusitada: os polos estão migrando para o centro do planeta. E cinzas vulcânicas “chovem” em todo o mundo, misturando-se com a neve cada vez mais frequente.

Os Elvorix, e seu fascínio pelo passado. Fonte.

Os Elvorix, e seu fascínio pelo passado.

Um dos elementos mais interessantes do cenário são os Deuses. “Antropo”-morfizados até o limite, eles na verdade são mais desastrados e falíveis que seus adoradores mortais, deixando rastros de destruição e caos onde passam. Atrair a atenção divina é sempre um problema seriíssimo: não se sabe como o deus em questão vai manifestar suas “graças”. E, não raro, elas podem ser piores que a ira de muitos dos outros. Eles, inclusive, foram responsáveis pelo atual hecatombe em andamento. Um dos Deuses do cenário se desagradou de um erro besta no ritual anual em sua homenagem e resolveu danar a vida de todos no planeta. Teólogos ainda discutem, 86 anos depois, se ele realmente conseguiu fazer o que queria ou se o hacatombe é um efeito colateral imprevisto.

As principais raças são quatro. Os Elvorix,  nobres, politeístas e receosos dos Deuses; Os imprudentes, corajosos e simples Vidaar, que são da mesma raça que os Elvorix, mas se tornaram piratas, guerreiros e saqueadores e voltaram há pouco menos de 100 anos para tomar as terras de seus irmãos; Os Jaarl (leia-se Iaarls), inteligentes, diligentes e guerreiros, mas em pequeno número, escravagistas e se recuperando de uma catástrofe que lhes custou  seus país e sua fé; e, por fim, os Kuld, encarrados mais como uma praga devoradora de tudo (e todo), esses seres estão sempre famintos e digerindo o que puderem, mas, eventualmente, um deles desperta e tenta se comunicar com outras culturas…

Os Disciplinados Jaarls

E, como eu disse antes, todos estão em Guerra: os Kuld são odiados pelos outros três, devorando tudo num eterno transe e tratado como uma das pragas enviadas pelos Deuses. Os Elvorix, em verdade, são os herdeiros dos grandes Sentians, capazes de maravilhas de engenharia inigualáveis, como Aquedutos e Faróis, mas como qualquer atividade “diferente” do tradicional pode chamar a atenção dos deuses, eles não conseguem redescobrir muita coisa. E, além disso, eles são os descendente de Elvora, o Grande Enganador que conseguiu fazer com que uma parte do povo seguisse o Tirano Vidaarus, quando ele partiu atrás da fantasiosa ilha de Garigla, pretensamente cheia de tesouros. Essa parcela de enganados são os Vidaar. E, até a invasão Jaarl, as duas raças estavam em guerra: os Vidaar querendo voltar ao seu lugar antes do engambelamento dos Elvorix, e estes tentando manter sua independência e estilo de vida.

Essa guerra durou um século, até aparecerem os Jaarls, mais bem equipados e preparados para a guerra, que conseguiram derrotar duas raças e começaram a ganhar várias batalhas, conquistando territórios e escravos. As duas nações, os Elvorix e Vidaar, fizeram uma trégua de quase setenta anos, até o Gambito de Orvas onde os Jaaarls conseguiram derrotar uma parte considerável do exército conjunto. Isso reacendeu velhos rancores (afinal, a culpa da derrota foi de quem?) e levou ao desfazimento da trégua.

Os Insaciáveis Kuld!

Agora estão todos contra todos, num clima de insegurança, medo e frio.

As regras trazidas por esse livro são um outro tesouro, no mínimo tão interessante quanto o cenário em si: com novas regras de combate, trazendo opções para torná-lo mais complexo, tático, estratégico e mortal, além de uma mecânica muito interessante de magias, rituais e para medir o Interesse Divino nas personagens – tudo isso para garantir um ritmo ainda mais imprevisível e cheio de surpresas para as aventuras. E, com certeza a minha adição preferida, regras para criar aventuras usando o Fractal do Fate, dando à aventura uma “ficha”, e fazendo sua condução ficar bem parecida com a de uma personagem.

O War of Ashes foi criado a partir de um jogo já premiado de miniaturas. Por isso traz novas regras de combate, explorando bem mais o uso de zonas em combate, bem como regras muito interessante para lidar com superioridade numérica, diferenças de tamanho, enxames, além de introduzir manobras: tanto através de ações de Criar Vantagem quanto versões simplificadas, utilizando os Impulsos conseguidos com as ações de Atacar/Defender. Mas, mesmo com essa adição toda de complexidade, não me pareceu que o combate ficou mais lento ou demorado que o combate padrão do Fate Acelerado. Outra regra bem interessante é a introdução de Dano Letal: que vai direto para as consequências do alvo, ignorando as Caixas de Estresse.

Os selvagens e ousados Vidaar!

 

Bem, como toda adição tática e estratégica demanda, há também uma seção bem interessante para criar Façanhas de Equipamento, que permitem causar dano Letal, atacar em zonas diferentes da sua e coisa desse tipo, além das várias armas/façanhas já criadas e prontas para uso.

Por fim, as Aventuras Fractais. Essa forma de preparar aventuras é sensacional: ela dá a aventura quatro abordagens, com uma distribuição próxima ao do FAE, e as usa para calcular praticamente todas as dificuldade que surgirão, de acordo com o que a narradora quiser destacar na aventura: Socialização, Combate, Investigação e Exploração. Após essa definição, é só ir criar um par de aspecto e uma oposição para cada cena que, voilá, um cenário está feito e pronto para ser jogado. A autora do livro diz que com um pouco de treino esse processo pode levar até 20min. Eu ainda demoro por volta de 30-40min, mas consigo material para duas, talvez três sessões de jogo.

Elvorix relaxando.

Elvorix relaxando.

Esse livro é um dos melhores que eu li esse ano inteiro: a ambientação é fantástica e muito detalhada, além de trazer inúmeras, umas boas duzias, de ganchos para aventuras e campanhas. O cuidado e esmero com o cenário lembram os bons tempos dos cenários do AD&D, onde era possível ignorar as regras e ler aquilo tudo como ficção. As regras também são excepcionais: não só o Fate Acelerado é um sistema bem sólido, como as mudanças que eles trouxeram realmente tem o potencial para torná-lo ainda mais complexo e interessante que o Fate Básico, especialmente se o seu grupo gostar mais de combates do que do resto todo. Fora que todas as regras são modulares, e servem perfeitamente para o Fate Básico, lhe dando uma série de ferramentas e customizações bem interessantes para seu outros jogos.

E aí, quais contos de fantasia épica num era meio arturiana, meio glacial e povoa por Muppets sua mesa vai encontrar na próxima sessão?

Anúncios

5 comentários sobre “Cinza, Guerras e Deuses: a Crueza Fofinha de War of Ashes.

  1. Essa sua resenha superou minhas expectativas manolo. Resumiu de uma maneira densa tudo o que se pode esperar desse cenário e regras além de deixar uma forte expectativa para jogar! E eu espero que não demore muito para ocorrer. ^^

  2. Pingback: Destino, Aspectos e Invocações: Fate Básico, parte 1. | Entoca

  3. Pingback: Criando aventuras pelo Fate Fractal | Mundos Colidem

  4. Pingback: Ficha de aventura fractal para FAE/Fate | Mundos Colidem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s