Tretas, Tecnologia e Softwares: A realidade distópica de Interface Zero.

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Capa do livro.

    Interface Zero (IZ) é a próxima grande aposta da editora Pensamento Coletivo, que já nos trouxe o maravilhoso Jadepunk. Ele está em financiamento coletivo no Catarse e já arrecadou mais de 15 mil reais! Está na reta final do financiamento, só faltam 10 dias! O livro realmente é uma adição interessante para o mercado nacional: é um cenário cyberpunk fantástico, com regras simples e dinâmicas (se vale do Savage World) e muito bonito. Ele virá em formato A4, todo colorido e em papel couché 90g. Um livrasso, no mesmo tamanho e modelo dos trazidos pela New Order, como a Lenda dos Cinco Anéis e o Numenera.

    Como a própria empresa já anunciou, um dos grandes diferenciais do Interface Zero é o fato dele ser cyberpunk. Esse tipo de cenário não é traduzido para o nosso mercado nacional há uns 20 anos. Todos aqueles que ficaram “órfãos” com a inabilidade da Devir de trazer a 4ª Edição do GURPS Cyberpunk ou que ficaram esperando alguém anunciar a licença do novo Shadow Run ou, ainda, os que ainda estão aguardando a Retropunk trazer o Eclipse Phase, uni-vos: o Interface Zero é uma alternativa bem interessante a todos esses suplementos.

    Primeiro, o livro é praticamente todo composto de fluffy, de descrição de cenário. Assim é possível usar ele dentro do seu sistema genérico favorito, ou fazer algumas modificações no seus sistema preferido para usá-lo. O livro tem, por baixo, quase 220 páginas (de 320) falando só sobre o cenário. Isso excluindo todas as partes que tratam de regra, pois mesmo nelas também existem uns detalhes e pequenos toques de fluff geniais: como MMORPG chamados “Blood of Throne” e “Deadlands” ou uma droga super-estimulante chamada Ginko Baloba IV.

   Segundo, o cenário é um cyberpunk primoroso. Ele se passa em 2090, num futuro distópico e traz um mundo de megacorporações, intrigas, gangues, preconceito e violência nas ruas. Ah, e todos os outros clichês, como a eminência da singularidade, manipulação genética e implantes cibernéticos. Bem, mas isso, obviamente, todos jogos cyberpunk trazem, como o nome já anuncia. A grande sacada do Interface Zero é como ele trabalha essas coisas, focando na promiscuidade entre Governos e Megacorporações; nos atritos entre Religião Tradição, de um lado, e os avanços Transumanos, de outro.

    Uma das muitas tensões que perpassam o jogo está entre a temática cyberpunk e os grandes dramas do cenário: é claro que existe o transumanismo, mas o grande problema com ele é sua aceitação por pessoas mais tradicionais, que vêem andróides, ciborgues, clones ou híbridos (fusões genéticas entre humanos e animais) como abominações anti-naturais que precisam ser destruídas por ofender as leis sagradas que regem o mundo. As megacorporações existem e são mais fortes que nunca, contando com exércitos particulares e, em alguns casos, até uma jurisdição autônoma, mas o governo ainda reina e controla boa parte da mídia e dos efetivos militares disponíveis. Ou seja, as empresas ficaram mais fortes por acumular mais dinheiro, mas a estrutura burocrática do governo ainda é uma força que precisa ser reconhecida e que é capaz de mudar os rumos do mundo.

IZ 1

Bem vindo! Ou não…

   O jogo aparenta ser cyberpunk, mas suas grandes tensões são atuais: preconceito, radicalismo religioso e corrupção do poder. É bem diferente, por exemplo, da premissa do Eclipse Phase, onde a economia realmente mudou com as impressoras 3D de tudo, possibilitando o fim da escassez, e onde um dos grandes problemas é no upload incerto dos dados que forma nossa personalidade, que a cada back-up vão se corrompendo e a memória vai se esvaindo, criando um dilema realmente pós-humano.

    A problemática da tecnologia no IZ se inscreve num problema de inclusão e exposição: ninguém consegue mais viver fora da virtualidade (ironicamente chamada de Hiper Realidade), pois não há mais dinheiro físico e, em cada esquina, há algum drone, câmera ou dispositivo que escaneia e registra as pessoas através de seus TAPs (Tendril Acess Processor). Quem não tem um TAP é marcado como suspeito e é um alvo certo de segurança privada e da polícia. Os TAPs funcionam como uma interface direta entre a Internet da época (chamada de Datanet Global), permitindo que o cérebro funcione como um computador, processando e acessando a rede tem tempo real.

     Ou seja, todo mundo precisa ter um computador na cabeça, que pode ser hackeado, rastreado e manipulado por agências governamentais, corporações e hackers. Não estar sujeito à vigilância significa uma exclusão total da sociedade, tanto através da criminalização quanto da impossibilidade de interações sociais básicas, como comprar alimentos ou receber salários. É como em 1984, mas com teletelas dentro da sua própria cabeça.

     Outro ponto extremamente interessante do IZ é a explicação de como o mundo chegou aonde chegou em 2090. Os autores usaram a geopolítica de maneira bem interessante para explicar as mudanças do mundo: eles criaram vários eventos e processos que geraram: 1) a desagregação dos principais países e blocos econômicos de “primeiro mundo” e 2) a concentração de recursos naturais e populacionais em países emergentes, especialmente nos BRICS. Esses fatos, o aumento nível do mar – que afetou o clima e área costeira do mundo – e uma guerra nuclear entre a Índia e o Paquistão, mudaram totalmente o mapa mundi.

Mapa IZ 2

Reparem no tamanho da China. E como a África mudou.

     A Rússia perdeu sua parte asiática e teve de pedir “asilo” à União Européia, tentando resistir ao Mandarinato da China. Os chineses tomaram praticamente toda a ásia, deixando apenas o Oriente Médio meio intacto. O Oriente Médio se unificou, se dividindo em uma Coalizão de Repúblicas e uma Monarquia, além de Jerusalém ter sido terceirizada para administração brasileira. Nós, para variar, nos tornamos uma espécie de teocracia, governada pela Liga dos Apóstolos, e tomamos praticamente toda a América do Sul: restam um pedaço improdutivo da Argentina, o Chile, Equador e Bolívia. Todo resto agora é Nova Brasília.

    A Austrália virou um aglomerado de gente em prédios modulares sempre crescendo verticalmente, para tentar recuperar o meio-ambiente para sempre perdido com as mudanças climáticas. A Nova Zelândia virou uma república plutocrática, baseada no conhecimento científico, extramente xenofóbica e intolerante. Os Estados Unidos viraram cinco outros países, e o Canadá, outros três. A União Européia beira o esfacelamento, com a Alemanha cada vez mais isolada e a França em polvorosa, com um Exército “golpista” e racista fugido e tocando o terror no sul da Europa, além de uma presidenta mutante com poderes psiônicos, que terceirizou suas forças armadas.

Mapa IZ 1

América do Norte, fragmentada. A do Sul, unida. A mesma projeção maldita, que faz com que eles pareçam imensos…

    E é nesse mundo maluco, com uma África unificada em três grandes blocos e uma Índia dividida em cidades-estados depois do caos nuclear com o Paquistão, que as estórias se desenrolam.

Que tipo de ser pós-humano metido em aventuras conspiratórias de alcance interplanetário você será?

PS: Essa resenha não é nem de longe compreensiva de todo o material. Faltou falar, por exemplo, da exploração espacial e das missões de colonização. Ou de como o livro é estruturado como um dossiê digital.

PPS: Leitores espertos notarão que eu não falei nada das regras, além de que o livro usa o sistema do Savage Worlds. Eu realmente não conheço o sistema (só joguei uma vez e nunca tive saco de ler as regras) e, portanto, não posso opinar sobre as modificações que o IZ fez no crunch.

2 comentários sobre “Tretas, Tecnologia e Softwares: A realidade distópica de Interface Zero.

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